quarta-feira

Marcas da idade

Pandora,

Recebi sua última carta e acho que você pode ter razão. Escrever e falar de lembranças pode me fazer bem sim. Quando eu era menina tinha a mania de escrever sobre tudo que sentia. Não era um diário, do qual nunca fui fã. Eram folhas soltas de papel que eu escrevia, guardava por um tempo e jogava fora, quando aquela reação ou sentimento já não fazia mais nenhum sentido e aquele processo já tinha virado aprendizado.

Você lembra, Pandora, de como brigou comigo quando joguei muitos fora ?

Naquela época, todos os sorrisos, as lágrimas, as alegrias e tristezas, os sonhos, os desejos, tudo ficou registrado em papel. Alguns tinham perfumes, outros eram meio transparentes, uns eram desenhados, saídos direto da minha coleção de papéis de carta ( uma grande coleção que eu escrevi até acabar e vc quaese me matou por isso, lembra ? ).

Outro dia pensei se haveria algum destes papéis guardados e numa visista à casa dos meus pais iniciei uma busca. Achei alguns, poucos, uns acompanhados de fotos e recortes de revistas que ilustravam alguma coisa que naquele momento deveria ter sido a mais importante do mundo. ( separei alguns pra vc ver, Pandora). Em um eu dizia que queria ser jornalista. Bem... não estou tão longe já que me formei em comunicação social. Mas outras tantas coisas que eu queria naquele instante estavam tão distantes da pessoa que hoje sou.

A lembrança que cada linha daquela me trazia não era, em quase nada, a mulher que eu via no espelho. E essa mulher era boa, cheia de vida e de novos sonhos. A imagem do espelho, da mulher que ainda ri e chora, que luta e trabalha, que sonha e vai atrás da vida e de fazê-la sempre melhor, essa era a imagem da menina hoje. A diferença é que a menina deixou lembranças e a vida deixou marcas, da idade, da experiência. E os sonhos de menina continuam existindo mas serão realizados com a determinação da mulher.

Beijos

ps.: Pandora, percebe que já me sinto mais forte ?

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