sábado

Para, que eu quero descer !

A última coisa boa que me lembro ter feito foi uma viagem aos Estados Unidos em Outubro de 2009. Mas até essa lembrança terminou com a triste notícia de que meu pai estava na UTI e a volta se tornou uma correria desesperada. Desse dia em diante, 08 de Outubro, nada mais foi igual. Meu pai passou 46 dias na UTI e veio a falecer em 15 de Novembro. Foram dias difíceis. Eu sofria por ele, por mim e por todos. Encarar a si mesmo naquele estado, ver as esperanças indo embora dia após dia, não ter forças para enfrentar a verdade, sofrer as limitações do seu estado clínico em sã consciência... Tudo isso contribuia para que aqueles fossem os últimos dias de vida do meu pai. Me preoupava com o estado de meu irmão e minha mãe. Me preocupava por deixar meu marido e minha filha sem assistência. Me preocupava não poder fazer muito além de embarcar na fantasia de melhora do meu pai e nem conseguia imaginar a vida sem ele. Vivemos tantos segredos, tantas meias palavras, tanto subterfúgio, que eu sabia que depois que ele se fosse, a vida seria de muitas surpresas, muitas descobertas...E assim foi. O mundo sem o meu pai era totalmente desconhecido para nós. E um tanto amedrontador.

No meio deste cenário, mudei de Estado, cargo na empresa, casa, meu marido demorou 7 meses para conseguir nos acompanhar e nos descobrimos grávidos da nossa segunda filha. Esta sim foi uma boa notícia mas também trazia uma carga impressionante de sentimentos que, junto com todo o resto, quase me enlouqueceu.

Neste período, confesso, não segurei a onda. Foi difícil, os nervos ficaram sempre à flor da pele, uma vontade louca de gritar, de me esconder, de parar tudo. Chorei, às vezes muito alto, outras vezes bem baixinho, mas foram muitas vezes. Perdi o sono, o humor, a força, as energias, a certeza, a segurança e até a vontade. Parte disso eu ainda não reencontrei, mas eu tento, todos os dias...

Minha gravidez foi complicada mas acabou bem. Minha filha, linda, nasceu na véspera do meu aniversário, no dia que meu pai passou a vida dizendo que foi o dia que eu nasci. O parto teve complicações que foram contornadas. Hoje, já com 3 meses, ela está ótima, saudável, feliz. E eu também, pelo menos sobre ela. Por ela, recuperei algumas certezas, das muitas que ainda me faltam. Tenho certeza de que poderia estar em melhor condição, mas ainda me faltam forças para ser mais do que tenho sido, fazer mais do que tenho feito.

Tenho me arrependido do que digo, do que faço e especialmente do que sinto. Às vezes, quando é silencioso, eu consigo rever, refletir, impedir de seguir ou de acontecer. Às vezes, quando é um acontecimento vivo, amargo o dissabor de não ter podido não falar, não fazer e não sentir.

É um sentimento complicado e solitário. Não tenho com quem ou para quem falar e falar comigo mesma tem me deixado louca. Então hoje, depois deste ano confuso, complexo, incomum, escrever aqui funcionou como uma terapia. Preciso de outras, mas não sei quando vou voltar a aparecer por aqui...

Um comentário:

Anônimo disse...
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