sexta-feira

Falta visão

Fui absolutamente companheira quando a sua selvagem e esfomeada cobra engolidora de elefantes foi displicentemente confundida com um tolo chapéu, na trama de O PEQUENO PRINCIPE. Ah, quantas vezes tive meus desenhos confundidos... E como eu ria com as interpretações absurdas (mas criativas, devo confessar) das pessoas. Aliás, até hoje eu me dobro em risos quando vejo alguém “interpretando” qualquer dos meus desenhos. Tem um, em especial, que fiz com o máximo de esmero que uma garota da minha idade poderia. E até hoje ele me parece absolutamente claro e transparente (ainda que essa clareza e transparência sejam tão óbvias apenas para mim). O desenho tem umas pedras na beira do mar e, sobre elas, um menino, seu cachorro e uma bicicleta. Veja, é um desenho bastante detalhista. Tem as pedras, o menino, ondas batendo contra as pedras, criando um certo ir e vir que o mar tem, um cão, preso na coleira, que o menino puxa por uma mão e segura a bicicleta com a outra. Não parece claro? Ficava imaginando com o que um desenho desse poderia ser confundido. Mas ele foi, inúmeras vezes. Muitas mais do que as vezes em que foi reconhecido. Mas essa experiência me ensinou uma lição que acabou sendo muito útil anos depois, quando tive que fazer um desenho para tirar carteira de motorista. O meu era uma árvore. Mas com base em experiências antigas, desenhei um pirulito e tive certeza de que essa era a maneira mais fácil de passar no exame. Se eu desenhasse uma árvore, a minha árvore, seria reprovada. Porque a minha árvore não parece um pirulito. Parece uma árvore. E o que eles esperam não é que você faça a sua árvore, mas a árvore deles. Pulei uma etapa e fui direto ao que interessava: sair dali aprovada! Deu certo. Dirijo há mais de 10 anos; mas continuo insistindo... FALTA VISÃO !

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